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 Goiás ocupa a terceira posição no ranking nacional de transplantes de córneas - Jornal Brasil em Folhas
Goiás ocupa a terceira posição no ranking nacional de transplantes de córneas


Em Goiás, são realizados transplantes de córneas, rins, coração e medula óssea, sendo que o de córneas é o mais comum. Somente ano passado, 778 transplantes deste tipo foram concretizados no Estado. Segundo dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), Goiás ocupa, atualmente, o terceiro lugar no ranking nacional de transplantes do tecido. O gerente da Central de Transplante de Goiás, Fernando Castro, explica que este tipo de transplante apresenta números mais altos, pois, além de ter mais equipes que fazem o procedimento no estado, as córneas, podem ser captadas até seis horas depois de o coração ter parado. Já os órgãos, só podem ser captados em casos em que há apenas morte encefálica e não cardíaca, além de que o período entre a captação e o transplante é menor. No caso do coração, por exemplo, ele deve ser transplantado em, no máximo, quatro horas.

O Hospital de Urgências de Aparecida de Goiânia (Huapa) é uma das unidades hospitalares que coopera para que Goiás tenha um bom desempenho nesse tipo de transplante. Em 2015, a unidade criou uma Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT), formada por psicólogos, enfermeiros, médicos e assistentes sociais, com o intuito de captar córneas, por meio da Fundação Banco de Olhos (Fubog) e do Centro de Referência em Oftalmologia (Cerof). Desde então, 24 córneas foram captadas. No primeiro ano, foram 10 – cinco doadores, ou seja, um par de cada pessoa – e, durante todo o ano de 2016, houve somente uma captação. Já em 2017, em apenas seis meses, já foram seis captações, totalizando doze córneas. Um aumento de 600%, se comparado ao mesmo período do ano passado.

Segundo a enfermeira da CIHDOTT do Huapa, Ana Paula Feitosa, “o aumento de captação do tecido é resultado de uma parceria efetiva que a unidade criou em 2017 com a Fubog e a Central de Transplantes do Estado, que tem oferecido, constantemente, treinamentos para toda a equipe sobre como abordar a família e explicar aos parentes a importância da doação de órgãos, que deve acontecer logo depois de constatado o óbito”, conta. De acordo com a assistente social Carla Simone da Silva, treinar os colaboradores sobre o assunto é importante, pois a comunicação da morte é um processo delicado, que requer muito cuidado da parte do informante. Segundo ela, falar sobre a doação em um momento de dor como esse requer uma atenção ainda maior. “Aí entra o papel do Serviço Social e da equipe multidisciplinar do Huapa, responsáveis por realizar o acolhimento da família, repassando a notícia de uma forma clara, porém humanizada, informando também o direito que eles têm quanto à questão da doação de órgãos e tecidos e o quanto é importante para salvar outras vidas”, explica.

“Se durante a entrevista notamos que há uma divergência de posicionamento entre os familiares a respeito da doação, orientamos que a decisão deve ser sempre tomada em consenso familiar, gerando conforto a todos. Se optarem pela doação, repassamos as orientações a respeito da captação do órgão, entramos em contato com o banco de olhos e acompanhamos a família até a finalização do processo”, acrescenta a psicóloga da unidade, Dayane Cruz. Na família do irmão de Ordalina de Souza, que faleceu na unidade no dia 23 de junho deste ano, aos 61 anos, vítima de politrauma após cair de um telhado, não houve dúvidas. “Ainda não superei a perda do meu irmão, mas o consolo vem ao saber que mesmo depois de morrer, ele levou alegria para quem, por meio das córneas dele, voltou a enxergar”, desabafa. As córneas do irmão de Ordalina foram destinadas a pacientes que necessitam de um transplante e estão aguardando na fila de espera do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), do Ministério da Saúde (MS). Em Goiás, atualmente, 482 pessoas aguardam por um transplante de córnea, de acordo com a Central de Transplantes do Estado.

A falta de informação, barreiras culturais, mitos e medos fazem com que parte da população brasileira ainda resista à doação de órgãos. No Brasil, desde 2001, para ser doador não é preciso atestar por escrito em documentos oficiais, apenas expressar em vida a vontade de doar. Todas as pessoas acima de dois anos e com menos de 80 são doadores em potencial, com algumas exceções. Porém, a doação de órgãos só acontece, de fato, depois que a família autorizar. Assim, quando uma pessoa morre, a decisão passa para as mãos da família. Mas, muitas vezes, o sentimento de perda faz com que o assunto seja ignorado.

Conscientização - Para o diretor técnico do Huapa, Elisandro Cunha, comissão hospitalar tem papel fundamental na conscientização das famílias sobre a doação de órgãos. “Eu vejo a Comissão como uma possibilidade de dar esperança para quem já a perdeu. A doação de órgãos é o único meio para que as pessoas voltem a ter uma vida muito próxima do normal. E para a família que perde um ente querido, tentamos explicar que podem ser solidários em salvar alguém, o que é extremamente recompensador nesse momento para quem ainda sofre com a perda”, avalia. Ainda segundo ele, além de treinamentos e cursos oferecidos para profissionais da saúde que lidam diretamente com familiares que perdem membros da família, é importante que o trabalho de conscientização alcance a população em geral.

No Huapa, a divulgação ganha um enfoque maior todo mês de setembro, quando a unidade realiza ações especiais em função do Setembro Verde – mês dedicado à campanha de doação de órgãos. Foi por meio dessas campanhas e do noticiário na televisão realizado por entidades governamentais que a assistente administrativa do Huapa, Thaís Mendes da Silva, de 24 anos, desenvolveu aos doze anos a consciência sobre a importância da doação de órgãos. “O fato de eu trabalhar em um local onde percebo como um ato simples de amor como esse pode levar tanta alegria para outras pessoas e, por ver como a equipe da Cihdott é empenhada, me incentiva ainda mais. Eu sou doadora e já deixei claro para a minha família sobre o desejo de poder ajudar outras pessoas”, conta.

 

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