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 Na Rocinha, crianças vão para o tatame com judocas da França - Jornal Brasil em Folhas
Na Rocinha, crianças vão para o tatame com judocas da França


Foi um dia diferente no Complexo Esportivo da Rocinha. Dezenas de crianças do Instituto Reação tiveram uma aula de judô especial. Eles conheceram a delegação francesa, com quem puderam interagir, lutar e conhecer de perto. A pequena Ana Clara Silva, de 9 anos, pode participar de uma pequena demonstração com um dos treinadores da equipe francesa do esporte e não escondeu a alegria.

“Eu gostei de lutar com aquele moreno ali, eu adorei. Ele gostou tanto de mim que até mandou tirarem uma foto. Tiramos no telefone dele e no telefone da minha mãe”, disse a menina, moradora de São Conrado e que já pratica judô há seis anos no instituto. “Eu achei muito legal porque eu também quero lutar, ganhar uma medalha de ouro e ser campeã”.

Mirela Cabral, de 10 anos, também treina no local e gostou da visita internacional. “Achei muito legal, fiquei muito feliz deles terem vindo aqui ver a gente”. Mirela é moradora da Vila Verde, na favela da Rocinha, e treina no local. “Eu gosto muito das crianças, dos meus amigos e do sensei. É muito bom treinar com eles”.

A animação, entretanto, não estava só do lado das crianças. Os atletas franceses demonstraram simpatia o tempo todo. Brincaram com todos, receberam medalhas de papel feitas pelas crianças e posaram para fotos. Automne Pavia disputará os Jogos Olímpicos na categoria abaixo de 57kg. Automne deitou com as crianças no tatame e tirou várias fotos, sorrindo, abraçando e sendo abraçada.

“Para mim, foi importante vir hoje porque eu adoro as crianças, o contato com elas. Para mim, foi muito importante compartilhar esse momento com elas, mostrar para elas que todo mundo é igual e que no tatame todo mundo é igual na hora de lutar”, disse a judoca, medalha de bronze nos Jogos de Londres 2012.

Loïc Pietri vai competir na categoria abaixo de 81 kg e também foi à Rocinha entre um treino e outro, que está sendo feito no Instituto Reação de Jacarepaguá. Pietri já conhecia o Rio de Janeiro, quando disputou e venceu o campeonato mundial em 2013. “O Rio é uma cidade que eu gosto, porque ganhei o mundial três anos atrás. Agora é outra competição, tem que se concentrar, não pensar no passado e sim no futuro”.

Para ele, é importante que o atleta conheça todas as faces do país que visita e não fique apenas preso à rotina de treinos e competições. “Para mim, é importante ver tudo do Brasil. Porque tem as riquezas da Vila Olímpica, mas também tem outras coisas e a pobreza também, que é bom conhecer. Quando você vive do esporte é bom saber que tem gente com o sonho de chegar onde chegamos”, disse em um português bastante compreensível, fruto da convivência com a namorada, a piauiense campeã olímpica Sarah Menezes.

O ginásio onde as crianças treinam estava lotado. Crianças e professores no tatame e a aquibancada lotada de pais. A imprensa internacional também estava presente e chamou atenção quando chegou. Na entrada do complexo esportivo, um menino passou correndo e disse: “Welcome to Rio!”. Um jornalista asiático ficou surpreso e sorriu em retribuição.

No tatame, o clima era de confraternização. Os pequenos deram cartazes de boas vindas aos franceses, que presentearam alguns deles com kimonos novos. Em seguida, o treino começou. Delegação francesa contra crianças brasileiras. Apesar da admiração e das homenagens, as crianças davam o máximo de si para derrubar os visitantes que, por sua vez, ofereciam alguma resistência antes de se deixarem derrubar, para aplausos de todos.

“É grande para essas crianças a importância de viver outras culturas, em contato com nomes tão consagrados do judô apesar de muitos não terem a dimensão do que eles são. Nada melhor do que grandes ídolos do esporte para ajudar o judô a ser uma das ferramentas de transformação social”, disse Guilherme Luna, professor no instituto.

O instituto foi criado em 2003 pelo judoca Flávio Canto, medalhista de bronze nos Jogos de Atenas. “O judô é o carro-chefe do projeto. Acredito que a gente conseguirá, com o tempo, formar faixas pretas dentro e fora do tatame, que é a proposta. E esse fora do tatame é esse tipo de trabalho de envolvimento com os valores do esporte, respeito, determinação”, disse Canto.

“Essa brincadeira de hoje, com as crianças derrubando os franceses, tudo isso tem um simbolismo muito grande do espírito olímpico. A ideia é mudar o mundo pelo espírito olímpico e quando a gente tem equipes que carregam esse mesmo espírito e atletas medalhistas olímpicos e mundiais perto deles, acho que dá a perspectiva de que eles também podem chegar lá”, completou o ex-atleta.

 

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