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20 de Nov de 2018 - Jornal em tempo real - Expediente - Publicidade

 

 
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 Família de homem baleado por policial em Pernambuco denuncia ameaças - Jornal Brasil em Folhas
Família de homem baleado por policial em Pernambuco denuncia ameaças


A família de Edvaldo Alves da Silva, baleado por um policial durante protesto no interior de Pernambuco, denunciou que está sofrendo ameaças. A denúncia foi apresentada durante reunião da Comissão de Cidadania, Direitos Humanos e Participação Popular da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), que debateu o caso.

O jovem foi baleado por um policial militar durante manifestação realizada na última sexta-feira (22) em Itambé, interior de Pernambuco. O protesto era contra a falta de segurança e a violência na cidade. Edvaldo foi atingido à queima-roupa e está em coma, internado na unidade de terapia intensiva (UTI) do Hospital Miguel Arraes. O caso ganhou repercussão com um vídeo divulgado nas redes sociais, que mostra o momento em que Edvaldo leva o tiro, cai no chão, é arrastado e agredido pelos agentes e jogado na carroceria de uma viatura.

Abatida e chorando, a mãe do rapaz compareceu à reunião, mas não concedeu entrevista.

O irmão de Edvaldo, José Roberto da Silva Santos, que esteve na reunião, disse que, depois da divulgação do caso, testemunhas estão sendo ameaçadas. José Roberto contou que foi abordado segunda-feira (20) por dois homens enquanto acompanhava um grupo de moradores à Fundação de Hematologia e Hemoterapia de Pernambuco (Hemope), no Recife, que doariam sangue para Edvaldo. “Chegaram dois rapazes dizendo que eram da Corregedoria e pediram informação. Queriam saber da jovem que estava no vídeo [uma das testemunhas], perguntaram o que aconteceu. As pessoas que estavam no protesto estão sendo ameaçadas”, afirmou José Roberto.

A Secretaria de Defesa Social informou, por e-mail, que a Corregedoria da Polícia Militar investiga a conduta dos policiais, mas não fez qualquer contato com a família de Edvaldo Alves.

Segundo o advogado da família, Ronaldo Jordão, que também esteve na reunião, uma empresária que testemunhou o momento em que Edvaldo foi baleado tem sido intimidada por mensagens em uma rede social. Uma das frases enviadas à empresária, conforme o advogado, é: “Você é a tal [nome suprimido para proteção da testemunha] que vive a criticar a polícia de Itambé?”.

A família pede que os autores do tiro e das agressões a Edvaldo sejam presos e também que os policiais militares lotados em Itambé, que, seriam os autores das ameaças, sejam substituídos.

A Secretaria de Defesa Social informou, por meio da assessoria de imprensa, que a Polícia Civil está apurando as denúncias de ameaça, “até agora sem autoria definida”, e que solicitou inclusão do irmão que denunciou sofrer ameaças no Programa de Proteção a Testemunhas. A pasta já tinha informado na segunda-feira que os militares envolvidos no caso foram remanejados para serviços administrativos.

Falhas no atendimento

Durante a audiência, a família também disse que houve falha no atendimento à vítima. Depois de atirar em Edvaldo, os policiais arrastaram o jovem, agrediram-no jovem e o levantaram pela bermuda, jogando-o na carroceria de uma caminhonete. Segundo testemunhas, no local, havia uma viatura do Corpo de Bombeiros por causa da manifestação. “O socorro poderia ser feito de forma mais apropriada”, disse o advogado Ronaldo Jordão.

José Roberto apontou outro problema: o registro do boletim de ocorrência (BO). “Quando cheguei ao hospital, disseram que atiraram no Pretinho [apelido do irmão]. Ele tinha sido encaminhado ao Miguel Arraes pelo Samu [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência]. Aí fui para a delegacia. Falei o que aconteceu, e o policial que estava de plantão disse que não podia [registrar o BO]. Aí peguei os documentos do meu irmão, todos melados de sangue, e fui para casa.” A justificativa dada pelo agente teria sido de que o irmão não estava no local quando o disparo foi feito, então o boletim não poderia ser registrado.

O advogado disse que o Hospital Miguel Arraes, do governo estadual, não passou dados solicitados. “Estive no domingo lá para colher informações que poderiam embasar o caso, tipo o instrumento que atingiu Edvaldo; que parte do corpo foi atingida, a gravidade, e nada disso foi repassado.” A família também diz que não teve nenhum boletim médico por escrito; só recebeu informações informalmente, em conversas com profissionais de saúde.

Em nota, o hospital informou que o paciente continua internado na UTI, apresentando constante melhora, mas que ainda está em coma e respira com ajuda de aparelhos. Um novo boletim de saúde será divulgado amanhã (23). Sobre a declaração do advogado, a instituição informou que “a consulta ao prontuário médico é restrita aos profissionais que prestam assistência e ao próprio paciente” e que “os familiares acompanham diariamente a situação clínica durante as visitas, sendo atendidos diretamente pela equipe médica do Hospital Miguel Arraes”.

O chefe da Polícia Civil, Joselito Kehrle, disse à imprensa que “as imagens falam por si sós. O que houve foi um disparo com elastômero [material de balas de borracha], que atingiu a virilha e transpassou até as nádegas”. A corporação afirma ainda que desconhece que tenha havido tentativa, por parte de funcionários da delegacia, de impedir o depoimento da família. “Ao contrário, a polícia tem todo interesse em esclarecer os fatos, já tendo tomado o depoimentos do policiais militares envolvidos, das testemunhas, além da realização de diligências e perícias criminais”, diz, em nota.

Procurada, a assessoria de comunicação do Corpo de Bombeiros não se manifestou até o momento.

Comissão

Durante a reunião da Comissão de Cidadania, Direitos Humanos e Participação Popular, o presidente do colegiado, deputado Edilson Silva (PSOL), propôs a realização de reuniões com instituições que poderiam cobrar medidas de forma mais rápida para resolver o caso. Seriam agendadas visitas dos parlamentares ao Tribunal de Justiça de Pernambuco, à Procuradoria-Geral do Estado e ao Comando-Geral da Polícia Militar.

Os membros da comissão que fazem parte da base governista se opuseram à proposta e derrubaram a iniciativa por 3 votos a 1. Ficou decidido que será enviado um ofício relatando as denúncias feitas pela família e pelo advogado Ronaldo Jordão. “Tem uma versão posta, mas tem gente que está sendo acusada e precisa ter direito de defesa. Entendemos que o limite da nossa comissão é esse, então, encaminhamos ofícios, e a comissão vai acompanhar”, disse o deputado Isaltino Nascimento (PSB), líder do governo na Assembleia Legislativa de Pernambuco.

Questionado pela Agência Brasil se a recusa das reuniões não diminuiria a importância do caso, Nascimento negou. “Muito pelo contrário. Parece prudência, para a gente não misturar a parte pelo todo, até porque a maioria esmagadora dos profissionais da segurança pública é íntegra, cumpre seu papel. Para não dar uma conotação de que estamos trabalhando contra a corporação ou a Polícia Militar e o governo do estado. Que não é o caso, foi um episódio isolado e vai ser apurado”,

O deputado Edilson Silva lamentou o resultado: “nós hoje aqui procuramos estabelecer que a Comissão de Cidadania e Diretos Humanos iria se reunir presencialmente com o comando da PM, com o procurador de Justiça, o Tribunal de Justiça, mas, estranhamente, a bancada do governo, que tem maioria no colegiado, acabou votando pela não reunião. Vamos encaminhar da melhor forma possível, mas acho que foi uma infelicidade do governo evitar que a comissão se reúna com essas instituições, pois uma situação como essa precisa ser tratada como excepcionalidade”.

 

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