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 Extraordinário, baseado no livro homônimo de R. J. Palacio, é um exercício de empatia - Jornal Brasil em Folhas
Extraordinário, baseado no livro homônimo de R. J. Palacio, é um exercício de empatia


Muitos de nós passamos este último ano desanimados com uma enxurrada de acontecimentos trágicos. Os tumultos em Charlottesville. A devastação deixada pelos furacões Harvey e Irma. O massacre de Las Vegas. Violência inimaginável em uma igreja em Sutherland Springs. Mesmo o mundo tradicionalmente escapista de Hollywood encolheu com o surgimento de mais e mais acusações de assédio sexual.

Por isso mesmo, agora é um momento melhor que nunca para abraçarmos um gênero cinematográfico frequentemente criticado: um filme sentimental clássico, do tipo feito para arrancar lágrimas do espectador. E o trabalho mais recente de Stephen Chbosky, Extraordinário (Wonder) é exatamente isso: um trabalho comovente que chegou exatamente na hora certa. E pouco importa se é um melodrama.

Extraordinário é baseado no romance com o mesmo título de R.J. Palacio. É a história de um menino de 10 anos, Auggie Pullman, que tem uma deformação facial congênita e é representado maravilhosamente por Jacob Tremblay, ator mirim que já se destacou em O Quarto de Jack. No livro de Palacio e no filme de Chbosky, vemos Auggie começando a estudar numa escola pública normal, na quinta série, depois de ter sido ensinado em casa até então por sua mãe dedicada e protetora (Julia Roberts).

Auggie já passou por mais de 20 cirurgias para tratar seu problema, que se presume seja uma forma de síndrome de Treacher Collins, que afeta o desenvolvimento dos ossos e tecidos de seu rosto. Mas, tirando sua aparência externa, seus interesses e hobbies são como os de outra criança qualquer. Seu feriado favorito é o Halloween, e Star Wars é seu filme predileto. Sua matéria favorita é ciência.

Ele tem um pai bacana (Owen Wilson) e uma irmã adolescente aparentemente perfeita, Via (Izabela Vidovic). Sua família torna seu dia a dia suportável, mas Auggie sofre para aceitar quem é e como é visto por outros quando está fora desse espaço familiar seguro, tanto que opta por usar um capacete plástico de astronauta sempre que sai de casa. Sua cabeça está no espaço, enquanto seu corpo está preso ao chão, num mundo onde seus colegas de classe ignoram tudo o que têm em comum com ele para focalizar apenas os aspectos em que Auggie é diferente.

O que acontece com Auggie ao longo do filme de Chbosky, com quase duas horas de duração, é preocupante mas também triunfal. Ele é isolado, é atormentado, é convertido em pária. Auggie vira alvo de bullying por ser inteligente, por ser feio, por ser estranho. As pessoas o olham sem parar quando ele chega à escola e quando fica sentado sozinho, de cabeça baixa, na sala de aula e no refeitório. Assim que chega em casa, Auggie desaba, dizendo a seus pais que a escola não é seu lugar. É doloroso assistir a essas cenas, e foi justamente essa a intenção.

Você não é feio, Auggie, lhe diz sua mãe quando Auggie lhe conta como é xingado todos os dias.

Você tem que falar isso porque é minha mãe, ele responde, chorando.

Pelo fato de eu ser sua mãe, é mais verdade ainda porque eu sou a pessoa que conhece você melhor, ela lhe garante.
LIONSGATE
Jacob Tremblay é Auggie, à esquerda, e Noah Jupe é Jack Will em

Auggie acaba se animando de novo e volta à escola. Ele faz um amigo, Jack Will (Noah Jupe), e isso abre o caminho para outros alunos tomarem seu partido para enfrentarem o fanfarrão agressivo da escola, Julian (Bryce Gheisar). A história ganha contornos mais positivos com a ajuda de um professor (Daveed Diggs) e do diretor do colégio (Mandy Patinkin), que enxergam em Auggie aquilo que ele é: um garoto que pode lhes ensinar alguma coisa sobre o que é ser um ser humano.

Com sua mensagem benevolente confessa, filmes como Extraordinário são bem-vindos. Embora esse gênero específico tenda a descambar para a pieguice, os dramas sentimentais têm um papel específico a exercer em meio à enxurrada de más notícias.

O filme promove a gentileza como uma maneira bem-sucedida de viver nossa vida, isso em um momento em que somos dominados por líderes que pregam o ódio, disse ao HuffPost o ator Daveed Diggs, que faz o professor Mr. Browne. Extraordinário também destaca a coragem que é necessária para nos mostrarmos com honestidade como quem somos de verdade. Quanto mais pudermos ser responsáveis por nos mostrarmos inteiros em qualquer situação, quanto mais o mundo tiver que abraçar a diferença, menos seremos forçados a esconder nossos aspectos diferentes da média e mais obrigaremos os outros a encarar essas novas diferenças, não apenas para aceitá-las, mas para festejá-las.

Muitos professores já encaram Extraordinário, o livro, como uma leitura essencial para seus alunos. Não apenas é um estudo de caso sobre bullying, como uma lição sobre uma nova geração de crianças que funcionam como seu conjunto próprio de normas sociais. (Tremblay disse ao HuffPost que sua turma na escola iria ao cinema para assistir ao filme quando fosse lançado.) Com acesso a smartphones, tablets e redes sociais, as crianças de hoje se distanciam umas das outras, fechando a porta aos vínculos físicos e emocionais. Os professores, que passam mais tempo que a maioria das pessoas com crianças e adolescentes, ainda exercem um impacto indiscutível sobre o crescimento destes.

Numa cena memorável do filme, no primeiro dia de aula o professor Mr. Browne faz uma pergunta inesquecível aos alunos: Quem é que eu aspiro me tornar? É essa a pergunta que precisamos nos colocar sempre.

Momentos como esses são um pouco água com açúcar, sim, mas também são altamente positivos. Como Tremblay disse ao HuffPost, a humanidade poderia aprender alguma coisa sobre optar pela gentileza. E às vezes um filme sobre gentileza e bondade merece uma chance de virar sucesso de bilheteria.

 

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