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 Vazamento compromete pente-fino na Penitenciária Nelson Hungria - Jornal Brasil em Folhas
Vazamento compromete pente-fino na Penitenciária Nelson Hungria


A aposta na tecnologia por meio de câmeras com visão térmica e noturna para fazer uma varredura completa na penitenciária de segurança máxima Nelson Hungria, em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, depois de um fim de semana de tensão vivido dentro e fora do presídio, acabou prejudicada por um vazamento de informações. Áudios que circularam pela internet na noite de terça-feira, inclusive recebidos pelo presidente da Comissão de Assuntos Carcerários da Ordem dos Advogados do Brasil em Minas Gerais (OAB/MG), Fábio Piló, indicam que tanto os presos quanto os agentes penitenciários já sabiam na noite anterior que haveria a operação, o que pode ter facilitado a vida dos detentos. Em um dos áudios, uma pessoa que supostamente é um preso diz que o presídio estava preparando comida para 400 agentes do sistema prisional. Segundo o suposto preso, isso indicaria uma intervenção na cadeia ou treinamento, mas ele “não pagaria para ver”. A operação de fato ocorreu com o apoio do Centro Integrado de Comando e Controle (CICC) móvel, que dispõe de duas câmeras com zoom de até dois quilômetros, capazes de identificar objetos escondidos pela temperatura e com visão noturna.
Por volta das 5h30, os responsáveis pela operação começaram a chegar à cadeia. Segundo a Secretaria de Estado de Administração Prisional (Seap), o trabalho não era um simples pente-fino, mas sim uma ação muito mais complexa para ampliar as informações relativas às condições estruturais da unidade e, consequentemente, melhorar a questão da segurança. A pasta informou também que a operação não foi motivada pelo fim de semana de tensão na Nelson Hungria, que começou no sábado com a fuga de oito presos de um dos anexos, passou por um início de motim dos detentos, teve falta de água nos pavilhões e terminou com ameaças divulgadas em vídeo e concretizadas com a queima de um ônibus em Contagem no domingo. Na ocasião, os autores do ataque deixaram um bilhete reclamando da opressão na cadeia. A Seap não divulgou o que apreendeu ontem com os detentos.

Se por um lado a Seap não admite relação entre a operação de ontem e o último fim de semana de turbulência, o advogado Fábio Piló discorda e acredita que a relação seja direta. “Claro que sim, a operação foi motivada pelos vídeos gravados de dentro da penitenciária durante os acontecimentos do fim de semana. Os pavilhões dos anexos têm sim celulares e por isso a Seap resolveu fazer essa operação”, diz o presidente da Comissão de Assuntos Carcerários da OAB/MG. Piló destaca também que a eficácia do trabalho foi colocada em xeque a partir do momento em que ele recebeu, na noite de terça-feira, dois áudios que adiantavam a possibilidade da operação. Em um deles, um homem que demonstra ser funcionário do sistema prisional alega ter recebido mensagem de pelo menos três outros agentes, de outras unidades, relatando sobre uma convocação para atuação na Nelson Hungria.

Já no outro áudio, um segundo homem, que parece ser um preso, disse ter ficado sabendo da presença de 400 homens do sistema prisional na cadeia e da necessidade de preparar comida para o grupo na noite de terça-feira, além da presença dos homens e mulheres do Comando de Operações Especiais (Cope) da Seap. “Isso mostra que a operação vazou. A Seap precisa investigar na própria carne, porque se tem celular e droga dentro da penitenciária e presos fugindo é porque alguma coisa está acontecendo. Nesse caso, o ideal é contar com uma investigação profunda e técnica comandada pelo Ministério Público ou pelo Departamento de Operações Especiais (Deoesp) da Polícia Civil”, afirma o advogado.

TECNOLOGIA

Ontem, a operação contou com a presença do Centro Integrado de Comando e Controle (CICC) móvel, que é responsabilidade da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp). A carreta tem 12 estações de trabalho e, segundo o diretor Leonardo Caputo, pode acessar todos os sistemas criminais para rápida identificação de envolvidos em delitos. O principal diferencial que esteve funcionando na Nelson Hungria, segundo Caputo, foram duas câmeras, que podem chegar a 30 metros de altura e têm um zoom de até dois quilômetros, com visões térmica e noturna. As duas funcionalidades podem ajudar a encontrar objetos escondidos e dispersados pelos presos. Além disso, outras quatro câmeras dão a visão do perímetro externo do caminhão.

SEGURANÇA

Em nota, a Seap informou que a operação de ontem faz parte um planejamento da pasta e que o trabalho já ocorreu em outras unidades prisionais do estado. O objetivo era verificar condições de infraestrutura, planejamento, inteligência, segurança, atendimento aos presos e recursos humanos, tudo para ampliar informações e aumentar segurança. “Entre as atividades operacionais, destaca-se a realização de vistoria em todas as celas pelo Cope, observando-se as determinações legais que regem a matéria. Entre as atividades administrativas e de atendimento ao preso, destacam-se a definição de fluxos internos e procedimentais, a coleta de informações a respeito das condições de infraestrutura predial, fortalecimento de ações voltadas para a ressocialização do preso e melhores condições de trabalho para os servidores”, diz a nota.

Sobre as suspeitas de vazamento levantadas pelo advogado Fábio Piló, a Seap disse, também por meio de nota, que “não comenta falas de pessoas que não conhecem a gestão prisional”. Informou ainda que apura sobre vídeos e áudios “supostamente” gravados no interior da Nelson Hungria “no âmbito de suas atribuições, sendo que, quando as denúncias ultrapassam as atribuições da Secretaria são comunicadas às autoridades com poder de investigação criminal”.
Entenda o caso

No último fim de semana, o cenário de tensão marcou o clima na Nelson Hungria. No sábado, oito presos fugiram de um dos anexos. No mesmo dia, detentos começaram a divulgar vídeos na internet reclamando de falta de água e que essa questão seria uma represália da unidade devido à fuga. Além disso, os presos ameaçaram praticar ações de violência se nada fosse feito. A Copasa esclareceu que houve um problema no abastecimento, que foi resolvido no mesmo dia, mas a demora para encher as caixas da penitenciária manteve a ira dos detentos, que chegaram a ameaçar o juiz responsável pela Vara de Execuções Criminais de Contagem. No domingo, um ônibus foi incendiado na Avenida João César de Oliveira, em Contagem, e um bilhete pedindo o fim da opressão na cadeia foi deixado pelos marginais. Ontem, a Secretaria de Estado de Administração Prisional (Seap) desencadeou a operação na unidade.

 

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