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 Loucura Suburbana, um resgate da sanidade e do carnaval da zona norte carioca - Jornal Brasil em Folhas
Loucura Suburbana, um resgate da sanidade e do carnaval da zona norte carioca


Quanto mais loucos, mais rimos: este provérbio foi tomado ao pé da letra pelos pacientes de uma instituição psiquiátrica no Rio de Janeiro cujo cortejo de carnaval atraiu cerca de 1.500 foliões.

Com fantasias coloridas de tigre, arlequim ou pirata, uma mais criativa do que a outra, essa multidão atraiu na quinta-feira, véspera do início oficial do carnaval carioca, pacientes e suas famílias, cuidadores e simpatizantes de toda a cidade.

Sem contar as dezenas de moradores de Engenho de Dentro, zona norte do Rio. É neste bairro que se encontra o Instituto Municipal Nise da Silveira, anteriormente Centro Psiquiátrico Pedro II, fundado em 1911 e mais tarde rebatizado em homenagem à famosa psiquiatra.

Discípula de Carl Jung, Nise da Silveira, falecida em 1999, revolucionou o tratamento das doenças mentais no Brasil, humanizando os cuidados e abolindo práticas agressivas como a lobotomia.

Seus métodos para ressocializar pacientes ainda são aplicados hoje no instituto que tem seu nome.

Em 2001, uma oficina de arte-terapia para os pacientes acabou por se transformar em um bloco de carnaval. Seu nome: Loucura suburbana.

O objetivo era primeiro fazer os pacientes participarem, depois resgatar o carnaval do subúrbio, que já foi muito tradicional, mas estava meio morto, com todos os blocos indo para a zona sul, explica Ariadne de Moura Mendes, fundadora do bloco.

- Me sinto livre -

Antes de desfilar pelas ruas do bairro, os participantes se reuniram primeiro no pátio do instituto, todos fantasiados.

Alguns em pernas de pau, outros com grandes estandartes de tecido decorado em cores vivas.

André Poesia, de 42 anos, esquenta a voz. Este paciente esquizofrênico é um dos cantores do grupo, cujo som é amplificado por alto-falantes instalados em uma caminhonete.

O carnaval faz parte da minha vida, gosto muito de samba. O nosso bloco mostra que não há preconceito, o louco também é capaz de ser feliz, de se divertir, afirma sorridente com uma peruca rosa

Mônica, igualmente esquizofrênica, espera impaciente o início do desfile. Aqui, me sinto livre!, comemora essa mulher de 42 anos, com um tutu rosa, que para os transeuntes para presenteá-los com um beijo em meio a euforia.

Um pouco mais distante, vestindo uma camiseta verde florida, Silas Gonçalves toca bateria no grupo de percussão. Estou aqui para me divertir, é ótimo encontrar amigos em vez de ficar trancado, diz o jovem de 52 anos, que trata seu vício em álcool e cocaína.

Para Ariadne de Moura Mendes, graças ao carnaval, os pacientes deixam de se identificar em função dos preconceitos da sociedade, que os vê como pessoas perigosas, inúteis ou preguiçosas. Eles podem expressar-se livremente, são artistas de verdade.

- O prefeito de diabo -

Para o desfile do Loucura Suburbana, os pacientes preparam o desfile ao longo do ano. Cada um encontra seu lugar, seja na oficina de percussão ou na confecção de fantasias.

Se um paciente do hospital ou um morador da vizinhança não tiver fantasia, pode pegar emprestada uma, das dezenas guardadas em um pequeno prédio que servia anteriormente de capela mortuária.

Ex-paciente do instituto para tratar uma depressão, Marcio Inácio, de 49 anos, foi responsável por esculpir um gigante boneco de poliestireno com a imagem do prefeito Marcelo Crivella, adornado com chifres vermelhos do diabo.

Uma verdadeira afronta a este pastor evangélico, que foi fortemente criticado por sua relutância em relação ao carnaval.

Essa caricatura também é uma crítica aos cortes orçamentários que afetam os serviços de saúde, incluindo o bloco Loucura Suburbana, que, devido à falta de financiamento público, teve que arrecadar fundos na internet para desfilar este ano.

 

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