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16 de Dez de 2018 - Jornal em tempo real - Expediente - Publicidade

 

 
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 Índios guaranis assistem a filme sobre resistência à redução de território em SP - Jornal Brasil em Folhas
Índios guaranis assistem a filme sobre resistência à redução de território em SP


A primeira vez no cinema do índio guarani Mirindjú, 21 anos, será especial. “Dizem que eu apareço [no filme], mas eu quero ver. Estou ansioso”, disse o jovem indígena antes de entrar na sala do Cine Sesc, onde foi exibido, na noite desta segunda-feira (19), o filme Ara Pyau – A Primavera Guarani. O documentário do cineasta Carlos Eduardo Magalhães conta o processo de luta pela demarcação da Terra Indígena Jaraguá, na zona norte paulistana. Ao lado de Mirindjú, cerca de 100 guaranis foram conferir a própria história na telona. A exibição faz parte da 6ª edição da Mostra Tiradentes em São Paulo, aberta na última quinta-feira (15).

Chocalhos, pinturas corporais, danças tradicionais e cantos indígenas tomaram conta dos corredores do cinema antes de começar a sessão. Alguns até já conheciam o filme, que foi exibido antes nas aldeias, mas fizeram questão de conferir na tela grande. “A expectativa era que viessem cerca de 60, mas hoje soubemos que muitos mais estavam interessados em vir”, relatou o diretor do filme. Magalhães aposta no filme como um instrumento para contar a luta dos povos indígenas para diferentes gerações. “Eles querem mesmo se apropriar do filme e esse sempre foi o meu desejo”, comemorou. Esta é a segunda exibição pública do documentário. A primeira foi na cidade mineira de Tiradentes.

Sônia Ara, liderança guarani, concorda que o filme contribui para a visibilidade e o fortalecimento da luta pela demarcação do território que reivindicam. “Quando você vê [o documentário], você lembra de tudo que se passou. É um reconhecimento da comunidade e dos interesses que estão ali. A gente assiste e pensa: ‘puxa vida, a gente já fez tudo isso’. É uma forma de garantir que a gente está vivo, que vivemos tudo aquilo”, apontou. Com a sala lotada, ao longo da exibição do filme, que teve a maioria das falas em língua guarani, eram comuns cochichos e risos da plateia, quando reconheciam parentes ou vizinhos.

O diretor Magalhães conta que a ideia começou a partir de outro projeto também sobre a cultura indígena. “Estava produzindo para uma série de TV e um dia me veio à cabeça que viajei 4 mil quilômetros para encontrar povos originários. Então eu pus na internet e vi que o Jaraguá estava há 8 quilômetros da minha casa”, relatou. Por intermédio de outro cineasta, Carlos Papá, ele soube que a comunidade resistia a uma medida que pretendia diminuir o território Guarani em São Paulo. “Eles estavam começando a se organizar. Eu digo que esse filme foi um presente que eu ganhei. Quando isso acontece, você agradece e vai”, relatou.

Luta

O documentário, de 76 minutos, mostra a resistência dos guaranis contra mudanças que pretendiam reduzir a demarcação de uma área de 512 hectares para pouco mais de 1 hectare. Eles aguardavam a homologação do território expandido quando uma portaria do Ministério da Justiça, em agosto de 2017, anulou portaria anterior, de 2015, que ampliava a área. Com isso, a Terra Indígena Jaraguá voltaria a ter 1,7 hectare. A demarcação dessa área foi homologada em 1987. O Ministério da Justiça informou à época que estava corrigindo um erro administrativo e que a extensão correta seria 3 hectares.

Para impedir que as mudanças fossem adiante, os guaranis organizaram protestos e chegaram a ocupar o Parque do Jaraguá, assumindo, inclusive, o controle de torres de transmissão que ficam no local. As antenas ficam no ponto mais alto do parque e são responsáveis pelo sinal de empresas de telefonia, rádio e televisão. Na Terra Indígena do Jaraguá vivem cerca de 700 guaranis em quatro aldeias. O território também faz parte de uma disputa jurídica com o governo do estado de São Paulo por se sobrepor, em parte, à unidade de conservação.

A portaria que reduzia o território Guarani foi suspensa após decisão da Justiça, a pedido do Ministério Público Federal (MPF). O processo segue em julgamento na Justiça Federal. “Nós conseguimos fazer seis retomadas, então hoje somos sete áreas em torno do parque e é essa área que eles revindicam. A luta não para. A gente precisa que esses mais de 500 hectares sejam respeitados. Nós somos a própria terra. Se tira a terra, está matando o índio a cada dia”, apontou Sônia Ara. O diretor do documentário explica que a perspectiva vitoriosa da luta indígena é o foco do filme. “A gente trata o índio como um herói”, destacou.

Edição: Davi Oliveira

 

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