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 Prefeituras atravessam a noite recolhendo pacientes para cirurgia - Jornal Brasil em Folhas
Prefeituras atravessam a noite recolhendo pacientes para cirurgia


Em Chapada dos Guimarães, os moradores das áreas rurais saem de casa um dia antes do sol nascer para chegar a tempo.

Os vizinhos Zenaide e José Rodrigues chegaram à beira da estrada vicinal que dá acesso à Cachoeira Rica, em Chapada dos Guimarães, às 20h, mesmo a prefeitura tendo marcado o encontro às 22h. Eles estavam a caminho de Cuiabá, onde iriam fazer a cirurgia de catarata na Caravana da Transformação, na Arena Pantanal, e preferiram se adiantar para não ter o risco de perder a condução.

A jornada deles começou na noite de quarta-feira (25) e só acabou na tarde do dia seguinte, quando retornaram a suas casas. Como eles, outras 600 pessoas, apenas da cidade, irão participar do evento, que tem como carro-chefe os tratamentos oftalmológicos.

Conforme o coordenador de Baixa e Média Complexidade do Município, Rubens Ranzani, a cota disponibilizada pelo governo do Estado para o Município vai não só acabar com a lista de espera como atender toda a demanda reprimida. “Por este motivo a gestão municipal optou por investir na logística”.

Tanto Zenaide Rodigues, como o vizinho dela José Rodrigues, que são caseiros na zona rural, chegaram à cidade 40 minutos depois de embarcarem no primeiro meio de transporte, uma Kombi, que também passou por outras duas comunidades rurais.

No antigo hospital municipal, onde hoje funciona a secretaria de saúde do município, eles se encontraram com outros pacientes. Alguns estavam na estrada há mais tempo, como é o caso de Abidoral de Souza, 66, que saiu de casa às 14h.

Abidoral é de um distrito de Jangada e diz que precisa voltar a enxergar bem para dar continuidade ao trabalho na roça. “Eu enxergo apenas o vulto e muitas vezes tenho que dirigir pelo rumo. A sorte é que tenho experiência porque trabalhei muitos anos como motorista da coleta de lixo. Mas, com a modernidade, pessoas de pouco estudo como eu conseguem tocar a vida apenas em sítio”.

Ele chegou à cidade por volta das 18h e foi acomodado em um hotel, junto com outras pessoas vindas de pontos distantes do núcleo urbano. Lá teve tempo para descansar antes de seguir para o ponto de encontro do grupo.

Antes de pegar a estrada, cerca de 100 pacientes vestiram um colete de identificação na cor amarela e receberam uma espécie de workshop para saber como se portar durante o evento. Entre as dicas, dadas pelos agentes de saúde, estava o fato de andarem sempre em dupla, de comunicar previamente quando quiserem ir ao banheiro e de nunca deixar de levar um acompanhante onde forem.

Eles ainda simularam a chegada, a formação e manutenção da fila e ainda como não perder a vez na área de espera. “Temos que ficar sempre juntos. Um do lado do outro para facilitar o retorno”, esclareceu a agente de saúde, que trabalhou o seu turno normal e faz o acompanhamento como voluntária.

Após treinamento, todos recebem um desjejum com café, chá e bolachas de sal e em seguida, seguiram em fila indiana para os ônibus, sendo que os que andam mais devagar ou precisam de auxílio de cadeira de rodas foram na frente. E, às 2h40 da manhã de quinta-feira (26), os motores começam a funcionar e os dois veículos, fretados pela prefeitura, seguiram para Cuiabá.

Durante a viagem, o caseiro José Rodrigues estava ansioso. Ele, que já atuou como mestre de obras, afirmou que não consegue sequer fazer uma pequena obra com qualidade, pois não consegue acertar o plumo e quando assenta os tijolos, eles ficam desconectados. “A parede fica toda dentada”.

No caso de Zenaide, os serviços domésticos estão cada vez mais complicados. A costura, uma atividade prazerosa para caseira, está suspensa porque perdeu a perícia nos cortes e caseados. “Eu vou fazer nos dois olhos e quero voltar a costurar e quem sabe realizar o meu sonho, de ser professora. Agora, nem penso nisso porque não consigo ler”.

Ao chegar à Arena Pantanal, ainda não havia sol e comitivas vindas de outros municípios do Vale do Rio Cuiabá já estavam posicionadas na fila. O evento, que está na 13º edição, atende além da capital mato-grossense, as cidades de Várzea Grande, Acorizal, Barão de Melgaço, Chapada dos Guimarães, Jangada, Nova Brasilândia, Nossa Senhora do Livramento, Planalto da Serra, Poconé, Santo Antônio do Leverger, Rosário Oeste, Nobres.

Ao descer do ônibus, as pessoas com problema de mobilidade foram colocadas em cadeiras de rodas. O chapadense Benedito Teixeira de Oliveira, 80, foi um deles. O agricultor mora em um sítio com o filho dele e conta que demorou a procurar o médico e quando foi, tinha perdido a visão de um dos olhos.

Como tinha pouco dinheiro, sempre recorria às óticas para minimizar o impacto da falta de visão no dia a dia. “Eles me passavam os óculos, mas em pouco tempo ele não prestava mais para nada. Cheguei a comprar 4 óculos em um único mês”.

Conforme o idoso, logo após a cirurgia, as diferenças eram perceptíveis e agora, ele espera passar a recuperação para voltar a fazer as coisas que lhe dão prazer, como pescar e cuidar dos tanques de peixe da propriedade.

Velocidade no atendimento – A comitiva de Chapada dos Guimarães esperou aproximadamente 30 minutos na fila e foi encaminhada para a recepção da cirurgia. Isto aconteceu por volta das 6h da manhã e às 10h, todos estavam reunidos na área de orientação para receber o colírio, óculos e instruções do pós-operatório.

A expectativa da Caravana da Transformação é oferecer à população mais de 20 mil atendimentos oftalmológicos, dos quais 15 mil são cirurgias. Até a sexta-feira (27), o governo do Estado realizou 74.423 procedimentos oftalmológicos, dos quais 5.721 foram cirurgias. O evento será encerrado no dia 10 de maio.

 

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