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 Em oficinas, adolescentes infratores fazem curtas e fogem de estereótipos em PE - Jornal Brasil em Folhas
Em oficinas, adolescentes infratores fazem curtas e fogem de estereótipos em PE


“Viajei num navio coberto de grades à procura de uma ilha chamada liberdade”. Foi essa frase que Jaime* sugeriu para abrir o filme-carta de doze jovens entre 18 e 20 anos internos do Centro de Atendimento Socioeducativo (Case) do município de Cabo de Santo Agostinho, região metropolitana do Recife. Esse e mais seis curtas-metragens produzidos no projeto Cartas ao Mundão foram exibidos hoje (8) no Cinema São Luiz, no Recife. A Agência Brasil acompanhou um dia de oficina para saber como foi o processo de construção dos vídeos.

Os internos de sete unidades da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Funase) são os próprios autores dos curta-metragens, cujo objetivo é enviar uma mensagem escolhida por eles a um destino além grades: o mundão. Cada unidade escolheu sua mensagem e seu destino: frases de afeto para as mães, flerte em forma de música para as adolescentes internas, aviso à sociedade que eles podem voltar à sociedade sem cometer crimes.

A frase de Jaime, que ele disse ser de composição própria, foi o título do filme do Case do Cabo. As imagens foram produzidas ao longo da semana, com o registro do que achavam importante de suas rotinas. Um grupo jogava bola na quadra da unidade. Outro fazia capoeira em um pequeno canteiro de jardim. Internos pegando água na cisterna. Um novo “morador” chegando, algemado. Outro saindo. “Um dia é minha vez”, fala um. “Vejo todo mundo saindo, menos eu”, diz outro, cuja medida vai até 2018, caso a Justiça não reavalie (avaliações são feitas a cada seis meses) e diminua o tempo em regime fechado.

Em uma das salas de aula da unidade, o grupo checava o que foi filmado e decidia o que entrava, que música usar, qual era a ideia do curta. Eles gostam de falar sobre o que vai acontecer uma vez que ganharem o “mundão”. A liberdade é uma referência recorrente quando respondem sobre o que acham importante. O passado não é convidativo para a conversa. Os próximos passos, sim. “Não vou ficar aqui no Recife, vou para outro canto. Já tenho trabalho quando sair daqui. De mecânico, na oficina do meu tio, em Fortaleza. Quando chegar lá, vai ser vida nova, ninguém vai me conhecer, não vai saber que eu fui preso. Vou levar meu filho, minha esposa”, disse Ricardo*.

Há também referências a respeito de suas origens, embora sejam indiretas, nas músicas pensadas para o filme (Heróis da Favela, de MC Daleste, por exemplo), nos termos e símbolos feitos com as mãos. No Cabo, todos são negros e pobres. “Aqui é todo mundo de favela, tia”, responde um dos garotos à pergunta de onde vieram.

A ideia do projeto é usar o cinema para fazê-los pensar sobre seu lugar no mundo, sua realidade, e sair dos lugares comuns que o mundo os coloca, segundo o idealizador e coordenador do Cartas ao Mundão, Caio Sales. “A partir do momento que você se representa, você coloca o que é importante para você. É um embate da democratização do acesso à produção contra as imagens estereotipadas que podem surgir”.
Escolaridade e profissionalização

Apesar de superlotado, a unidade de internação do Cabo de Santo Agostinho é considerado um modelo em relação aos demais, que enfrentam rebeliões, fugas e denúncias de maus tratos. Ali, cerca de 330 internos são abrigados onde cabem quase 170. Onze professores dão aula para turmas de 25 estudantes cotidianamente. A escolaridade precária ou incompleta é comum na unidade. Há também cursos de manutenção de computadores, robótica, encadernação, além da oficina de cinema.
O funcionamento é em forma de rodízio. Os cursos são intensivos, e quando uma turma acaba, precisa dar lugar a outro grupo de alunos. Existem planos para uma parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), para incluir todos eles em cursos profissionalizantes, com carga horária maior e titulação técnica.

O desafio, no entanto, é muitas vezes mais primário. Muitos jovens cujos destinos desembocaram na unidade de internação estavam à margem, sem acesso a direitos básicos, com um histórico de desamparo. Matheus* parou no segundo ano do ensino fundamental, aos 12 anos. Não sabe ler ou escrever de forma apropriada. Ele havia chegado há quatro dias e há dois aprendia a fazer encadernações manuais, com linha e agulha. Estudar a apostila do curso seria um problema para ele, mais tarde.

“Eu perturbava muito na escola, aí fui sendo expulso, até que nenhuma me aceitou”, disse Matheus. Nessa época, seu pai, policial militar, enfrentava o vício do crack, cujos problemas indiretos de saúde provocados pelo abuso da substância o deixou, atualmente, sem um dos braços, impossibilitado de falar e andar normalmente. O jovem, então foi morar com a mãe, que vivia de bicos. De um bairro mais estruturado para a favela. Do sonho de ser PM como o pai, passou a praticar roubos e furtos.

Agora, preso pela segunda vez, não tem mais contato com os familiares. “Minha mãe não vem, não tenho nem o número dela. Não sei quando ela vai vir me visitar. Meu pai mora com meu irmão, em Tabajara [Olinda]. Ele não consegue nem andar direito. Meu irmão trabalha”, disse. Para ele ou para os jovens da oficina de cinema, mais que conhecimento para um possível trabalho no “mundão”, as atividades os fazem esquecer da condição atual. “É para distrair, né, tia, porque ficar aqui na tranca é pesado”, diz Jaime, o autor do navio com grades rumo à ilha da liberdade.

 

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